Recorde em emissões de crédito privado fortalece captações e levanta sinal de alerta no mercado

São Paulo – A emissão de títulos de crédito privado chegou a R$ 381,4 bilhões entre janeiro e setembro de 2025, montante que representa 72 % das captações no mercado de capitais no período, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O volume sem precedentes ocorre em um ambiente de taxa Selic a 15 % ao ano, no nível mais elevado em duas décadas, e com mudanças na política de concessão de empréstimos do BNDES.

Gráfico ilustrativo do crescimento do crédito privado

Cenário de juros altos e recuo do BNDES impulsionam emissões

Desde 2017 o BNDES passou a reduzir linhas subsidiadas e a priorizar projetos ligados a sustentabilidade, inovação e infraestrutura verde. Com crédito bancário mais caro e seletivo, as empresas recorreram com mais intensidade ao mercado para captar recursos diretamente junto a investidores.

“O movimento ganhou força porque as companhias buscam manter projetos e equilibrar o caixa sem depender exclusivamente dos grandes bancos”, explica Diego Ramiro, presidente da Associação Brasileira dos Assessores de Investimentos (ABAI).

Principais instrumentos disponíveis

No universo de crédito privado destacam-se dois grupos de títulos:

  • Debêntures – Dívidas emitidas por empresas. Podem ser incentivadas (destinadas a projetos de infraestrutura, isentas de IR para pessoa física) ou não incentivadas (tributadas de 22,5 % a 15 % conforme o prazo).
  • Certificados de Recebíveis – Papéis vinculados a créditos de setores específicos e também livres de IR para o investidor pessoa física. São divididos em CRIs (imobiliário) e CRAs (agronegócio).

Tipos de títulos de crédito privado: debêntures, CRIs e CRAs

MP 1.303/2025 e corrida por isenção

Segundo relatório do BB Investimentos, a demanda recente foi amplificada pelas discussões sobre a Medida Provisória 1.303/2025, que tratava da tributação de produtos financeiros. O texto elevava de 5 % para 7,5 % a alíquota de IR sobre LCIs e LCAs, mas mantinha isenção para debêntures incentivadas, CRIs e CRAs. A MP perdeu validade sem aprovação, mas o risco de mudança fiscal acelerou emissões e aplicações.

Riscos muitas vezes ignorados

Apesar de classificados como renda fixa, esses papéis não contam com a garantia do Tesouro Nacional nem com a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). “O principal risco é o de crédito, ou seja, a possibilidade de a empresa não pagar juros ou principal”, alerta Andressa Bergamo, sócia da AVG Capital.

Jeff Patzlaff, planejador financeiro, lembra que eventual insolvência pode levar o investidor a perder todo o capital: “Diferentemente de CDBs e LCIs, o risco recai integralmente sobre quem aplica”.

Outra preocupação é a liquidez restrita. Nem todos os títulos têm negociação diária no mercado secundário, o que pode obrigar o investidor a carregar o papel até o vencimento ou aceitar deságio na venda antecipada. Os prazos variam de dois a mais de dez anos e estão expostos a oscilações de taxa Selic e percepção de risco-país.

Spreads comprimidos reduzem prêmio de risco

A forte procura também impactou o retorno. Os spreads – diferença remunerada acima dos títulos públicos – encolheram para patamares historicamente baixos após o volume recorde de R$ 124 bilhões no mercado secundário em outubro. Analistas do BB-BI identificaram correção parcial no fim daquele mês, afetando a rentabilidade das carteiras de crédito privado.

Casos recentes de estresse corporativo

Marília Fontes, economista e sócia-fundadora da Nord Investimentos, observa que a combinação de juros elevados e spreads menores pode deflagrar novas crises. Relembra problemas de Lojas Americanas e Light em 2023, além de episódios de Ambipar e Braskem, que geraram perdas de até 93 % em alguns Certificados de Operações Estruturadas (COEs) atrelados a essas companhias.

Aviso sobre riscos de crédito privado

Para quem o investimento faz sentido

Os especialistas apontam que crédito privado é mais indicado a perfis moderados ou arrojados, dispostos a aceitar volatilidade e risco de inadimplência em troca de ganho potencial. Andressa Bergamo reforça que a escolha não deve se basear apenas na taxa oferecida: “É crucial avaliar rating, setor, garantias e a estrutura da operação”.

Na carteira recomendada de novembro, o BB-BI selecionou debêntures incentivadas de empresas classificadas em rating A, como Axia Energia (ex-Eletrobras), CPFL Energia, Sabesp, Isa Energia e Vale. Ainda assim, Diego Ramiro lembra que o risco nunca é zero: “Depois do caso Americanas, ficou difícil afirmar que determinado emissor é totalmente seguro”.

Prazos, tributação e estratégia de saída

Como a maioria dos papéis tem duração longa, o investidor deve estar confortável em travar recursos por anos. “Quanto maior o prazo, maior a oscilação de preço e a exposição a cenários desfavoráveis”, diz Jeff Patzlaff. Em debêntures não incentivadas, a alíquota de IR segue tabela regressiva de 22,5 % a 15 %, o que reduz o rendimento líquido.

Mercado segue atento a 2026

A possibilidade de novas mudanças tributárias a partir de 2026 continua no radar. Caso isenções sejam revistas, emissores podem antecipar lançamentos para aproveitar as regras atuais, enquanto investidores tendem a manter apetite por prêmios extras de crédito, ainda que menores.

Mesmo com as incertezas, a expectativa é que o crédito privado permaneça como alternativa relevante de financiamento corporativo, exigindo análise criteriosa de risco, prazo e retorno para cada aplicação.

Com informações de G1

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