Saídas em série: por que companhias decidem deixar a B3 enquanto o Ibovespa bate recordes

Prédio da B3 no centro de São Paulo

São Paulo – A elétrica Neoenergia pode se tornar o mais recente nome a abandonar a bolsa brasileira. Controlada pelo grupo espanhol Iberdrola, a companhia recebeu proposta de Oferta Pública de Aquisição (OPA) para recomprar todas as ações em circulação e retirar seus papéis de negociação. Caso a operação avance, a Neoenergia reforçará a tendência de fechamento de capital que já retirou 32 empresas da B3 desde 2023.

Entre janeiro e outubro de 2025, além da elétrica, outras nove empresas comunicaram saída, incluindo Santos Brasil (STBP3), Carrefour Brasil (CRFB3) e JBS (JBSS3), após sua fusão com a BRF (BRFS3). O êxodo ocorre em paralelo ao bom desempenho do Ibovespa, que superou a marca de 159 mil pontos em 28 de novembro, acumulando alta superior a 32% no ano.

O que é uma OPA e como funciona

OPA é o processo inverso do IPO. Enquanto a Oferta Pública Inicial abre o capital para captar recursos, a OPA permite que o controlador recompre ações de minoritários, encerrando a listagem. O procedimento deve oferecer prêmio em relação à cotação de tela e precisa ser aprovado em assembleia.

No caso da Neoenergia, a Iberdrola informou que o objetivo é “simplificar a estrutura corporativa e organizacional”, garantindo maior flexibilidade financeira e operacional. Já na Santos Brasil, o grupo francês CMA CGM pagou R$ 6,3 bilhões por 48% do capital e decidiu fechar o capital após a aquisição. Fatores estratégicos semelhantes explicam saídas em série.

Custos de manter o capital aberto

Segundo Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, permanecer na bolsa impõe despesas constantes com auditoria, governança e equipe de Relações com Investidores, além da obrigação de divulgar resultados trimestrais. “A pressão por entregas a cada três meses encurta a visão de longo prazo e eleva o custo de permanência”, afirma o analista.

Tela de computador exibindo gráfico de ações

Impacto dos juros elevados

Com a Selic a 15% ao ano desde junho, títulos públicos e instrumentos de renda fixa oferecem retorno robusto praticamente sem risco. Para competir com esses ativos, as companhias listadas precisariam entregar ganhos ainda superiores, algo que muitas não conseguem no ambiente econômico atual. Esse descompasso reduz a atratividade das ações e favorece movimentos de fechamento de capital.

Além disso, investidores institucionais têm privilegiado crédito privado e debêntures, enxugando a liquidez das ações. Conforme lembra Praça, Donald Trump chegou a declarar, nos Estados Unidos, que gostaria de abolir o reporte trimestral devido à pressão exercida sobre as companhias, exemplo que ilustra as dificuldades enfrentadas também no Brasil.

Percepção de “ação barata”

De acordo com Frederico Nobre, gestor de investimentos da Warren, diversos controladores enxergam suas ações sendo negociadas a múltiplos considerados baixos. Ao avaliar que o preço não reflete o valor do negócio, o acionista majoritário opta por recomprar os papéis. “Se o mercado não reconhece o potencial, torna-se mais vantajoso fechar capital e conduzir projetos sem a lupa diária dos investidores”, observa o gestor.

Essa percepção ganhou força após 2021, quando as janelas para novos IPOs praticamente se fecharam. O último lançamento foi o da Vittia (VITT3), em setembro daquele ano. Desde então, a via tradicional de financiamento via mercado acionário perdeu fôlego.

Recorde do Ibovespa não reflete todo o mercado

O principal índice da bolsa é composto pelas ações mais negociadas e possui grande concentração em poucos nomes. Vale e Petrobras, juntas, respondem por mais de 15% da carteira teórica. Se esses papéis sobem, puxam o índice mesmo que várias outras empresas estejam estáveis ou em queda.

“Usamos o Ibovespa como termômetro, mas é preciso cautela”, diz Praça, comparando a situação ao S&P 500 nos Estados Unidos. Bancos de grande porte, como Itaú, também influenciam fortemente o cálculo. Assim, a marca de 159 mil pontos funciona mais como sinal psicológico do que prova de que todas as companhias vão bem.

Entrada de capital estrangeiro sustenta os recordes

Números da B3 indicam que 58,30% dos recursos aplicados na bolsa em 2025 vieram de fora do país. Dois cortes de juros pelo Federal Reserve reduziram a remuneração dos Treasuries e direcionaram investidores a mercados emergentes, onde o Brasil se destaca pelo retorno dos juros elevados. Esse fluxo fortalece o real e impulsiona o Ibovespa.

Para Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, a alta do índice também está ligada à recompra de ações por empresas que consideram seus papéis descontados. Esse movimento reduz a quantidade de ações em circulação e sustenta a valorização.

Fusões e reorganizações corporativas

Algumas saídas ocorrem após mudanças de controle ou fusões entre gigantes. O caso mais emblemático é a união JBS-BRF, que culminou no encerramento da negociação dos antigos códigos de ambas as empresas. A consolidação permite ganhos de escala, sinergia de custos e, muitas vezes, dispensa parte das exigências impostas a companhias listadas.

Vista de prédios corporativos

Lista de empresas que deixaram a bolsa desde 2023

Dados compilados por Einar Rivero, da consultoria Elos Ayta, mostram 32 saídas entre 2023 e 2025. Entre os casos mais recentes, destacam-se:

  • Neoenergia – OPA anunciada em 2025 pela Iberdrola para recomprar 100% das ações.
  • Santos Brasil – Aquisição de 48% pelo grupo CMA CGM e fechamento de capital em 2025.
  • Carrefour Brasil – Processo de saída concluído em 2025.
  • JBS – Papéis encerrados após fusão com BRF, em 2025.
  • Outras 28 companhias completaram o movimento entre 2023 e 2024.

Como fica o investidor minoritário

Quem possui ações de empresas alvo de OPA recebe proposta de compra, normalmente por valor acima da cotação. Caso o investidor discorde do preço, pode exigir laudo de avaliação independente e votar na assembleia que decidirá sobre o fechamento. Se a OPA for aprovada, os minoritários têm garantido o direito de vender suas ações pelo valor oferecido.

Cenário para novos IPOs

Apesar da euforia pontual com o Ibovespa, analistas apontam que os juros internos continuam altos e a renda fixa segue atraente. Enquanto isso, custos regulatórios permanecem elevados. Esse quadro reduz o apetite das empresas por abrir o capital, ao mesmo tempo em que incentiva quem já está listado a considerar o caminho inverso.

Para que as ofertas iniciais ressurgissem, seria necessário um ciclo consistente de cortes na Selic, maior previsibilidade macroeconômica e retomada do interesse dos investidores locais por ações. No curto prazo, porém, prevalece a direção contrária: empresas preferem fugir da exposição e dos gastos de estar na bolsa.

Perspectivas

Marcos Praça ressalta que a B3 passou boa parte do período pós-pandemia operando de lado, enquanto bolsas globais se recuperaram mais cedo. O recente salto dos índices representa, em grande medida, uma recomposição de preços atrasados em relação a outros mercados. Ainda assim, enquanto as condições domésticas não mudarem de forma estrutural, a tendência de OPAs pode continuar.

Em 2026, o mercado acompanhará de perto se o movimento de bancos centrais mundo afora – especialmente o Federal Reserve – continuará empurrando capital estrangeiro para emergentes ou se uma eventual reversão de fluxo poderá pressionar as cotações brasileiras. Até lá, investidores devem conviver com um Ibovespa em níveis elevados convivendo com um número cada vez menor de empresas listadas.

O descompasso entre índice em alta e saídas sucessivas destaca a necessidade de olhar além dos pontos do Ibovespa para compreender a saúde real do mercado acionário brasileiro. Apesar do marco histórico de 159 mil pontos, a bolsa perdeu diversidade e viu evaporar oportunidades que, em ciclos passados, atraiam empresas em busca de capital. Se essa dinâmica não se reverter, o universo de opções para o investidor local poderá seguir encolhendo, mesmo com o principal termômetro de ações renovando topos.

Com informações de G1

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