Banco Master chamou atenção com CDBs de 140% do CDI meses antes da intervenção

O colapso do Banco Master, liquidado pelo Banco Central (BC) após operação da Polícia Federal (PF), já era prenunciado pelas taxas incomumente elevadas pagas nos seus Certificados de Depósito Bancário (CDBs). A instituição oferecia até 140% do CDI, percentual que destoava da remuneração típica de 110% a 120% praticada por bancos médios considerados saudáveis. Especialistas afirmam que tais cifras, embora atraentes, antecipavam um risco crescente de liquidez e solvência.

Fachada de banco

Expansão dos CDBs e anomalia nas taxas

Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o estoque financeiro de CDBs aumentou 36% desde 2024, superando R$ 1,1 trilhão. Dentro desse universo, o Banco Master passou a captar clientes ao prometer rentabilidade significativamente superior à média, chegando ao patamar de 140% do CDI. Para o consultor sênior Otávio Araújo, da Zero Markets Brasil, “supertaxas indicam, na maioria das vezes, que a instituição perdeu acesso a formas baratas de financiamento”.

A escalada não ocorreu de maneira isolada. Conforme grandes bancos restringiram linhas interbancárias ao Master, a instituição intensificou a busca por recursos no varejo, ofertando cada vez mais retorno. Com isso, quem aplicou dinheiro passou a absorver risco que investidores institucionais já evitavam.

Sinal amarelo no mercado secundário

Quando titulistas tentaram se desfazer de CDBs do Master antes do vencimento, o mercado secundário exigiu até 177% do CDI para aceitar o papel. Essa explosão na taxa reforçou a percepção de que havia falta de liquidez: quanto menor o apetite do comprador, maior a remuneração exigida.

Além disso, a carteira do banco continha alto volume de ativos ilíquidos — entre eles carteiras fabricadas e precatórios —, o que limitava a conversão rápida em caixa. “A taxa de 140% do CDI não era cortesia; era o preço de um risco que o mercado qualificado não aceitava mais carregar”, pontua Araújo.

Gráfico de investimentos

O que observar antes de investir em CDB

Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, o primeiro filtro deve ser a análise de indicadores básicos:

  • Rating de crédito: nota atribuída por agências que mede a probabilidade de calote.
  • Índice de Basileia: percentual de capital próprio capaz de absorver perdas e sustentar empréstimos.

Perri lembra que é natural bancos médios pagarem mais que grandes bancos. Contudo, discrepâncias extremas dentro do mesmo segmento exigem atenção. Ele recomenda ainda verificar histórico da instituição e, se possível, conversar com um profissional de confiança.

Fernando Gonçalves, especialista em investimentos e sócio da The Hill Capital, reforça que “taxa atrativa só faz sentido quando vem acompanhada de fundamentos sólidos”. Segundo ele, fatores como porte, forma de captação e velocidade de crescimento merecem análise. Em emissores menores, Gonçalves sugere priorizar prazos mais curtos para reduzir exposição a eventuais deteriorações.

Proteções ao alcance do investidor

Mesmo quem não acompanha relatórios técnicos pode adotar passos simples, lista Otávio Araújo:

  • Confirmar se o banco é autorizado e fiscalizado pelo BC;
  • Checar cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC);
  • Pesquisar possíveis investigações ou mudanças de gestão relevantes;
  • Comparar a remuneração com a de instituições de porte semelhante.

O consultor ressalta que o rating ajuda, mas não é garantia absoluta. Diante da liquidação do Master, ele recomenda diversificar emissores e respeitar o limite do FGC — R$ 250 mil por instituição, totalizando até R$ 1 milhão a cada quatro anos. “Evitar concentração é crucial, ou o investidor pode enfrentar falta de liquidez e judicialização”, alerta.

Esquema Ponzi ou desequilíbrio de liquidez?

A dinâmica investigada pela PF levanta dúvidas sobre possível semelhança com um esquema Ponzi, no qual os pagamentos dependem da entrada constante de novos aportes. Para Bruno Perri, o padrão lembra esse formato, embora o Master operasse como banco regulado e tivesse atividade econômica real. Já Fernando Gonçalves distingue: o problema central foi o desequilíbrio severo de liquidez, não a inexistência de negócio subjacente. Araújo, porém, observa “aproximação perigosa”, pois a instituição passou a depender de captação crescente a taxas agressivas para seguir operando.

Mãos segurando dinheiro e calculadora

Perguntas frequentes (FAQ)

O que é um CDB?

CDB é um título de renda fixa emitido por bancos para captar recursos. O investidor empresta dinheiro à instituição e recebe juros pelo período acordado. A taxa pode ser pré-fixada ou pós-fixada, normalmente referenciada ao CDI.

Por que bancos médios pagam mais que grandes bancos?

Instituições de menor porte dispõem de menos alternativas baratas de financiamento e, portanto, precisam oferecer retorno superior para competir na captação de recursos.

Como o Fundo Garantidor de Créditos protege o investidor?

O FGC assegura até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira. O limite global é de R$ 1 milhão, renovado a cada quatro anos. Em caso de intervenção ou liquidação, o fundo reembolsa valores dentro desse teto.

Taxas muito acima do mercado sempre indicam problema?

Nem sempre, mas são um forte indício de risco maior. Diferenças extremas podem sinalizar dificuldades de liquidez ou solvência do emissor. Avaliar fundamentos do banco é essencial antes de tomar a decisão.

Vale a pena vender um CDB no mercado secundário?

Depende da liquidez e da avaliação de risco. Se a saúde financeira do emissor se agrava, o preço de revenda costuma cair (a taxa sobe), podendo resultar em perda ou em dificuldade para achar comprador.

Como monitorar sinais de deterioração?

Acompanhar notícias sobre o banco, variações bruscas nas taxas oferecidas e eventuais alertas de agências de rating ajuda a identificar problemas precocemente.

Liquidação e próximos passos

Após intervenção do BC, correntistas e detentores de CDBs do Banco Master recorrerão ao FGC dentro dos limites estabelecidos. Investidores com valores acima do teto precisarão aguardar os trâmites da liquidação para eventual recuperação de parte dos recursos.

O episódio reforça a importância de questionar rendimentos muito fora da curva e de diversificar aplicações entre diferentes instituições.

Com informações de G1

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